segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Holocausto - A Alemanha Contra os Judeus

Adolf Hitler
A relação de ódio declarado entre a Alemanha Nazista e os judeus de toda a Europa ( e do mundo ), durante a Segunda Guerra Mundial mudou significativamente a geografia do planeta depois de 1945. Direta e indiretamente. E continua a gerar conflitos dos mais diversos, que envolvem aspectos religiosos e econômicos, principalmente na região do Oriente Médio, onde foi estabelecido o Estado Judeu de Israel no ano de 1948.

A gênese da perseguição que levaria ao extermínio em massa dos judeus não está relacionada diretamente à subida de Adolf Hitler ao poder em 30 de janeiro de 1933. O futuro führer não pregou de imediato a propaganda anti-semita. Recorreu inicialmente a um discurso anticapitalista e à promessa de resolver os graves problemas econômicos da Alemanha, que se arrastavam e só pioravam desde o fim da Primeira Grande Guerra, em 1918.

A pregação anti-semita já existia, mas estava num plano que se poderia chamar de secundário, supostamente menos importante. A política nazista considerou como inimigo central prioritário os adversários políticos. Sobretudo comunistas e social-democratas, que se tornaram, antes mesmo do início da guerra, as primeiras vítimas dos campos de concentração. Pouca gente sabe, mas esses locais de isolamento prisional em grande escala entraram em funcionamento já em março de 1933, poucas semanas depois da ascensão de Hitler.

Como se verá a seguir, foi a partir de 1936, que teve início o encarceramento de homossexuais, Testemunhas de Jeová, cristãos, criminosos condenados e alguns considerados "associais" ( ou seja ciganos ), prostitutas e pessoas sem residência fixa. Entre os anos de 1933 e 1938, os nazistas adotaram gradativa e intensamente medidas que acabariam por excluir os judeus da vida econômica e social da Alemanha.
Testemunhas de Jeová, os triângulos roxos
Nesse período, a intenção pareceu ser forçá-los à emigração para outros países, além do império-germânico idealizado por Hitler. Era um propósito extremo e absurdo, uma vez que os judeus só representavam menos de 1% da população do país.
Até a eclosão da guerra, em 1939, o número de judeus tanto da Alemanha quanto da Áustria diminuiu pela metade por causa da emigração e da perseguição. A finalidade dessas medidas cada vez mais segregacionistas era eliminar por completo toda influência judaica em todos os setores do país ( economia, política, cultura, etc ). Depois, com a guerra, a partir de 1941, viria a ideia de se decidir pelo extermínio.

Documentos do Serviço de Segurança da Polícia Nazista ( SS ) sobre o "problema judaico" informava que "se deve exigir o aumento e a imigração assegurada" dos judeus. O texto afirmava que a emigração deveria ser tratada como uma medida "urgente" e ser "concentrada", isto é, "direcionada somente para pontos conhecidos a fim de evitar que em alguns países sejam criados grupos inimigos e que a população desses países se revoltassem contra a Alemanha".

À medida que a Alemanha caminhava para a guerra, o regime nazista divulgava ações antijudaicas. Ao mesmo tempo, incentivava e controlava a saída de judeus de seu território. estes eram obrigados a pagar uma taxa ao estado, tinham seus bens expropriados e só podiam levar consigo uma quantia limitada e irrisória de dinheiro, em espécie. Se não bastasse, alguns países europeus fecharam as fronteiras para a imigração ou as restringiram criminosamente para os judeus.


No campo de concentração de Buchenwald, para onde haviam sido levados 13 mil judeus, ocorreu o maior processo de soltura de prisioneiros da história da existência do campo. Cerca de 2,3 mil deles, sobretudo chamados "anti-sociais", foram mandados de volta para suas casa. Entre fevereiro e agosto de 1939, 2 mil judeus que já tinham documentos para emigrar, foram finalmente liberados, como ressaltou David Hackett, organizador do livro "O Relatório Buchenwald".

O contexto mudaria por completo a partir de 9 de novembro de 1938, quando o anti-semitismo ganhou prioridade para o regime nazista. Neste dia ocorreu o primeiro pogrom judaico na Alemanha do Século XX, num episódio que ficou conhecido como "A Noite dos Cristais". O termo foi uma referência às incontáveis vidraças, janelas e vitrines das casas e estabelecimentos judeus destruídos pelas tropas de choque nazistas e pela população alemã.

Estima-se que o ataque em massa tenha deixado milhares feridos, centenas desabrigados, casa e lojas destruídas. Quase 30 mil judeus foram presos e enviados para os campos de concentração de Dachau, Bunchenwald e Sachsenhausen, nos quais, posteriormente, muitos morreriam.

Era um movimento orquestrado nas altas esferas do reich, mais especificamente por Adolf Hitler e seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels. O evento foi organizado pelas Divisões de Assalto ( SA ) da polícia hitlerista. Para isso, usou-se como justificativa o assassinato do alemão Ernst von Rath dois dias antes, em Paris, pelo judeu de sobrenome Grynszpan, de 17 anos, que supostamente quis se vingar do tratamento desumano dado aos seus pais, na Alemanha. A vítima era funcionário da embaixada alemã na França.

Como represália, nada menos que 91 judeus foram assassinados na Alemanha nessa noite e nenhum dos crimes acabaria no tribunal para julgamento dos culpados. As mortes aconteceram ao mesmo tempo em que a maioria das sinagogas da Alemanha era queimada ou destruída e 7,5 mil lojas de judeus eram apedrejadas ou saqueadas, o que gerou prejuízo de muitas centenas de milhões de marcos.

Os eventos que culminaram nos assassinatos de 7 e de 9 de novembro haviam começado, na verdade, em outubro de 1938, quando 20 mil judeus que viviam na Alemanha foram mandados para a fronteira da Polônia.Entre eles, encontrava-se a família de Grynszpan. Aquela era considerada uma terra de ninguém e os judeus foram amontoados em estábulos, sem alimentos ou assistencia.

Foi quando Zindel Grynszpan decidiu escrever a seu filho Herschel, em Paris. Ao receber uma carta de sua família relatando a situação na qual se encontrava, o jovem ficou desesperado. O governo polonês recusava-se a reconhecer a sua cidadania e, consequentemente, toda a famíliaficou apátrida. Grynszpan decidiu tomar uma atitude desesperada para chamar a atenção do mundo sobre a situação de sua família e dos judeus na Alemanha.

Dirigiu-se à embaixada alemã, alegando ter uma "encomenda" para entregar ao embaixador. Foi encaminhado ao escritório do terceiro secretário. Ao entrar na sala, o jovem atirou no funcionário alemão. para o governo alemão, o fato era uma "prova da conspiração judaica contra a Alemanha".

No dia 9 de novembro, Ernst von Rath morreu vítima dos graves ferimentos. Ao saber dessa morte, Hitler, furioso teria dito a Goebbels: "As tropas de choque devem ter permissão para agir".

Ao que Goebbels teria respondido: "se os distúrbios se intensificarem e se espalharem por outras regiões além de Berlim, não devem ser contidos".

Além de não terem sido contidos foram incentivados por membros do partido nazista.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Dossiê Descobrimentos - Homem à Vista

Mapa de Cantino, 1502

Quando o espanhol Rodrigo de Triana, marinheiro a bordo da caravela Pinta, avistou as Bahamas às duas horas da manhã do dia 12 de outubro de 1492, estava dando início àquela que provavelmente foi a maior transformação já ocorrida no globo. A chegada das caravelas ao Novo Mundo pôs os europeus em contato com novos produtos, novos hábitos e novas necessidades. A incorporação dessas regiões à esfera de influência da Europa teve grande importância econômica, política e estratégica.

Não restam dúvidas sobre a dimensão desse impacto do lado ocidental do Atlântico: as populações nativas sofreram perdas incalculáveis, a começar pela drástica redução populacional causada por doenças ( os índios eram vulneráveis a várias das enfermidades do Velho Mundo ), guerras e escravidão. Além disso, passaram por uma profunda alteração nos seus modos de vida em consequência de uma nova lógica econômica, religiosa e política. Mesmo aquelas parcelas ou grupos nativos que se enquadraram na nova ordem se viram em uma situação bastante diferente daquela anterior ao final do século XV. A integração da África e da Ásia a esse sistema mundial com base no Atlântico, que vai conhecer seu auge entre os séculos XVII e XVIII, levou essas alterações, com altíssimo custo humano ( aliás, desumano ) às outras partes do planeta.

A Europa, ou parte dela, foi beneficiária no processo – se levarmos em consideração que suas elites políticas e econômicas, que variaram ao longo de cinco séculos, do XV ao XIX, estiveram à frente da empreitada colonial. Os bônus foram variados: a consolidação de Estados nacionais, de dinastias, de casas e grupos comerciais, ligados quase sempre a produtos oriundos das colônias, como o açúcar de cana; de uma nova classe social vinculada ao início e ao desenvolvimento da industrialização; e de um sofisticado sistema bancário – tudo com base nas relações ultramarinas.

Ao lado desse óbvio enriquecimento, como é de se supor, há também uma generalização da pobreza, não só no campo, mas, principalmente, nos crescentes centros urbanos. A multidão inglesa nas grandes cidades da revolução industrial, entre os séculos XVIII e XIX ( época da incontestável primazia da Grã-Bretanha no cenário econômico mundial ), é a mais perfeita forma da miséria humana em todos os tempos. A fome e a indignidade que atingiram os trabalhadores pobres do centro do capitalismo formaram o caldo humano que alimentou as ideologias de esquerda mais ou menos radicais, e seu gosto amargo não foi totalmente esquecido nos nossos dias.

O legado americano à Europa, entretanto, não se restringe às riquezas materiais que estão na base da expansão capitalista. Além do ouro, da prata e das pedras preciosas, os produtos coloniais também ganharam espaço naquele continente e alteraram a vida da cristandade. A começar pelo estômago: para se ter uma ideia da contribuição americana, dois dos quatro principais vegetais consumidos no mundo têm suas origens na região. A batata – injustamente chamada de “inglesa” – é originária dos Andes peruanos, onde já era cultivada havia cerca de 7.000 anos para alimentação humana. Foi levada pelos colonizadores europeus primeiramente como curiosidade, mas logo se espalhou e se tornou uma das bases da alimentação mundial. O milho, por sua vez, era cultivado inicialmente na América Central, e quando os europeus chegaram, entre os séculos XV e XVI, já era consumido em todo o continente americano. Devido à facilidade de adaptação e às muitas variedades, tornou-se elemento indispensável na dieta humana.


A sobremesa não poderia ficar de fora: o chocolate, vedete do paladar do Ocidente ao Oriente, estrela das mais refinadas gastronomias, personagem principal de datas especiais nos nossos dias, é igualmente originário das Américas. Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao México, perceberam que a iguaria era para poucos: era servida, por exemplo, ao imperador asteca, Montezuma II (1466-1520). Além disso, o cacau era utilizado em cerimônias religiosas e servia também como moeda. Entre os séculos XVII e XVIII, virou sensação na Europa e nunca mais deixou de ser associado à sofisticação do paladar [ ver RHBN nº 43 ].

Outro hábito emprestado dos nativos americanos, e que acabou sendo considerado civilizado séculos depois, foi o consumo do tabaco. Introduzido na Península Ibérica no século XVI, foi levado pelo representante diplomático francês em Portugal, Jean Nicot, à corte francesa – daí a homenagem no gênero do arbusto, nicotiana, e no nome do princípio ativo, a nicotina.

Entre os séculos XVIII e XIX, como toda moda adquirida da nobreza europeia, fumar virou sinônimo de sofisticação mundana, e os grandes centros “civilizados” do Velho Mundo promoveram a difusão do hábito – ou vício – em amplas camadas da sociedade, principalmente a partir da industrialização dos cigarros, no final do século XIX. Até bem entrado o século XX, mesmo com todas as provas científicas sobre os malefícios dessa toxicomania, fumar foi considerado um símbolo de modernidade, independência e civilidade.

Mas o grande impacto dos descobrimentos se deu mesmo no plano mental: entrar em contato com novas formas de organização social, estruturas políticas, hábitos alimentares, religiosidades, enfim, com novas culturas, trouxe aos europeus a noção de que os homens eram, em sua natureza, muito moldáveis. Levados para fora da Europa por um impulso ao mesmo tempo econômico e religioso, como rescaldo das intolerantes Cruzadas medievais, esses aventureiros acabaram se dando conta de que não havia apenas uma forma de se relacionar com o mundo, com os outros seres humanos e mesmo com as divindades.

Confrontados com uma diversidade inimaginável, que incluía canibais nus vivendo em formações tribais nômades ou vastos impérios territoriais que se dedicavam à construção de pirâmides e sacrifícios humanos, todos dotados de complexas cosmogonias, calendários e efetivas medicinas tradicionais, os oriundos da Europa cristã logo foram obrigados a reconhecer a humanidade de seres muito diferentes deles. Teólogos, filósofos e escritores produziram intensamente, por meio de debates falados e escritos, reflexões sobre o que seria a essência da humanidade, abrindo as portas para o que mais tarde, no século XVIII, seria formulado como “natureza humana”, rejeitando – ou, pelo menos, se abrindo à possibilidade para tal – a superioridade dos cristãos europeus sobre a totalidade dos grupos dispersos no globo.

Este impacto fica claro na mais famosa obra do inglês Thomas Morus, Utopia ( 1516 ). Trata-se de um relato ficcional sobre uma ilha recém-descoberta, onde os habitantes viviam em uma república perfeita, não conheciam a ideia de propriedade privada, colocavam a felicidade pública acima da individual, todos trabalhavam e, portanto, não havia exploração... Enfim, uma anti-Inglaterra, localizada convenientemente na América. Se pudesse haver uma forma perfeita de organização social – em tempos de divisões profundas na Europa, assolada por conflitos políticos e religiosos, agravados por transformações econômicas –, isto seria possível no Novo Mundo.

Se era aceitável a existência de uma formação política superior ( mesmo que utópica ) entre homens que não guardavam quaisquer relações com os do Velho Mundo, como rejeitar a humanidade dos americanos? O dominicano espanhol Bartolomeu de las Casas ( 1474-1566 ), bispo de Chiapas, no México, estava convencido da completa injustiça da escravização dos indígenas. Defensor de um modelo de colonização bem diverso daquele praticado pelos seus compatriotas, enfrentou políticos e teólogos, denunciou as atrocidades cometidas pelos espanhóis no Novo Mundo e morreu aos 92 anos como um autêntico humanista, na mais nobre acepção do termo.

Um humanismo que entrou definitivamente na pauta dos filósofos europeus pela pena de Michel de Montaigne, cujos Ensaios ( 1580-1588 ) tomavam como certa a universalidade do homem, e via como construções artificiais as instituições e os costumes do seu tempo. Esta visão, a longo prazo, abalaria as estruturas políticas, religiosas e sociais da Europa.

Dele a Rousseau ( 1712-1778 ), passando por todos os livre-pensadores franceses, os homens começaram a ser vistos como iguais em sua essência, embora variados em seus valores e modos de vida.

Os marinheiros de Colombo não sabiam, mas naquela viagem acabaram descobrindo um elemento até então incogitado: o homem.
Este texto foi originalmente publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional Nº 84, de setembro de 2012.
Texto de Rodrigo Elias.

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 5: A Comunidade Mística - Terra dos Justos

O Arraial de Belo Monte transformou-se em uma espécie de "terra prometida", à margem dos males da terra, para os adeptos do líder religioso. A proposta reformista de Antônio Conselheiro ultrapassou as fronteiras das classes subalternas, como é comum nessas situações. Há registros de pequenos, médios e grandes fazendeiros vendendo suas propriedades e se transferindo para o interior do arraial.

A fama de Antônio Conselheiro, crescente no decurso dos vinte anos de peregrinação pelos povoados, vilarejos e cidades, atraiu pessoas de inúmeras comunidades rurais baianas e de outros estados nordestinos. Localidades como Queimadas, Itapicuru de Cima foram abandonadas por centenas de moradores que rumaram para a cidade santa.

Para lá foram populares de de Inhambupe, Tucano, Cumbe, Bom Conselho, Natuba, Maçaracá, Monte Santo, Uauá, Entre Rios, Mundo Novo, Jacobina, Itabaiana, e outros núcleos populacionais distantes, dos estados do Sergipe e do Ceará.

Pelo alto das colinas, estradas e caminhos, deslocavam-se grupos de crentes em busca da famosa cidade. Pessoas traziam em macas, parentes doentes em busca de milagres. Vinham pequenos criadores, vaqueiros, mães de família e seus filhos, viúvas e pessoas sem eira nem beira. Pelas estradas de Calumbi, Maçaracá, Jeremoabo, e Uauá, transportavam-se mantimentos enviados de cidades como Vila Nova da Rainha e Alagoinhas, pelos admiradores do pregador.

O enorme contingente populacional foi responsável direto pela ampliação na dimensão territorial do sítio original da fazenda de Canudos. A área ocupada pelos conselheiristas em Belo Monte passou a ser aproximadamente 53 hectares. Em 1895, a população oscilava entre 5 e 8 mil habitantes. Em 1897, uma comissão de engenheiros militares avaliou a existência de mil casas, o que corresponderia a uma população de aproximadamente 26 mil habitantes.


Em 1897, o capitão Manuel Benício, correspondente do Jornal do Comércio, comentava a esse respeito:

"As casinhas vermelhas cobertas de barro
da mesma cor salpicavam a esplanada
desordenadamente em número de mil,
pouco mais ou menos."

Euclides da Cunha estimava a existência de 2 mil casas. Para Marco Antônio Villa, o número apresentado pelo exército é exagerado. Com a informação, a oficialidade buscava justificar as derrotas seguidas das forças armadas durante a guerra contra os caboclos.

Os moradores do arraial pertenciam a grupos étnicos e a camadas sociais bastante heterogêneos. os registros e os testemunhos contemporâneos indicam a existência de indivíduos brancos e negros, mas sobretudo mestiços. Ali se encontravam em número maior, pardos, cafuzos e mamelucos. esses traços, aliás, correspondiam à composição genérica do processo de formação étnica dos sertões nordestinos. O caboclo constituía o resultado do complexo amálgama iniciado com a colonização brasileira. Constituía a prefiguração do brasileiro tipo, negada, pois temida e abominada, por Euclides da Cunha, em Os Sertões: Campanha de Canudos.

É igualmente atestada a presença indígena em Belo Monte. Muitos dos populares que foram para o arraial tinham nas veias o sangue nativo da região. Ela pode ser confirmada na predominância de vocábulos de origem indígena em denominações geográficas como Pambu, Patamoté, Uauá, Bendengó, Cumbe, Cocorobó, Xiquexique, Jequié, Catolé e outras.


Há fortes indícios da existência de índios não-miscigenados no arraial. Algumas tradições dos caimbés de Maçaracá e dos quiriris de Mirandela subsistiram na comunidade, tendo lá inclusive morrido seus dois últimos pajés. Entre os vestígios encontrados no sítio arqueológico há instrumentos e objetos tipicamente indígenas.

Pesquisas recentes demonstram cada vez mais a participação de negros e ex-escravos na comunidade, entre os conselheiristas e entre os chefes da resistência. Belo Monte recebeu todos os refugiados e sofridos, sem distinção.

Antes mesmo de se estabelecer em Belo Monte, Antônio Conselheiro era seguido ( ou ouvido ) por cativos e negros forros.

Nas proximidades de Canudos, existiram redutos de escravos foragidos. No Século XIX, havia quilombos nas cercanias de Jeremoabo e Monte Santo, localidades vizinhas do arraial. Ex-escravos, negros livres e pardos, abandonados à própria sorte após a abolição, encontraram um refúgio em Belo Monte.

Grupos de ex-escravos instalaram-se no arraial, ocupando uma área conhecida como Rua dos Negros. Homens negros desempenharam papéis de comando ( entre os quais o célebre Pajeú ) na resistência militar conselheirista.

Entretanto, índios e negros puros constituíam a minoria da população. A historiadora Yara Bandeira de Ataíde afirma que apenas 4,95% dos habitantes eram negros puros.

A maioria esmagadora dos conselheiristas podiam ser chamados de "morenos acaboclados", mulatos, "escuros" e caboclos, revelando os caracteres físicos típicos do sertão nordestino: cabelo corredio duro ou levemente ondulado, estatura mediana ou baixa.

Quanto à origem social dos conselheiristas, parece não haver dúvida de que em sua maioria, provinham dos estratos mais humildes da sociedade da época. Havia comerciantes e pessoas de posses em Belo Monte. Porém, constituíam parcela inexpressiva. Homens como Antônio da Mota, Joaquim Macambira e Antônio Vila Nova tornaram-se chefes militares ou administrativos e ativos negociantes.

Havia professores, enfermeiros e um médico no arraial. Mas a maior parte dos habitantes desempenhava atividades vinculadas aos ofícios artesanais: mestres-de-obras, pedreiros, pequenas vendedoras, cozinheiras, etc. A comunidade dava abrigo aos deserdados, recebendo um grande número de camponeses analfabetos; pastores e vaqueiros das caatingas; e fugitivos e valentões locais, hábeis no manejos das armas, que viriam a ser designados, de forma pejorativa de jagunços.

A distribuição e a organização do povoado era igual a das outras comunidades sertanejas vizinhas. Porém, no arraial, o forte crescimento populacional determinou uma apropriação desorganizada do espaço habitado. Em geral, as casas construídas possuíam 40 metros quadrados de área. Eram feitas de barro e de madeira, com dois ou três compartimentos e cobertas com folhas de plantas locais. Possuíam uma porta e pequenas janelas.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 4: A Comunidade Mística - A Situação Geral

Em 1983, quando Antônio Conselheiro conduziu seus discípulos para Canudos, o povoado era pequeno, perdendo-se no meio dos vilarejos levantados em torno das inúmeras fazendas baianas. Porém, em um período de quatro anos, tornava-se um dos maiores núcleos populacionais do estado.

Com a chegada dos conselheiristas, o arraial foi renomeado, passando a ser chamado de Belo Monte. O novo nome deu um novo sentido a comunidade. O nome de Belo Monte simbolizava a revalorização geográfica do local. Enquanto Canudos lembrava decadência e abandono, Belo Monte apontava o lugar de encontro dos eleitos com uma vida melhor.

Contrastando com a prosperidade aparente das cidades beneficiadas pelas plantações de cana-de-açúcar e cacau, situadas mais para o litoral, a paisagem do interior baiano denotava a pobreza e o abandono, denunciando as profundas desigualdades entre as áreas costeiras e o sertão.

As condições de vida miseráveis nos pequenos povoados evidenciavam a estagnação econômica e as dificuldades enormes vividas pelos sertanejos.

Nas comunidades compostas algumas por dezenas ou poucas centenas de casas em torno de uma rua principal, alguns pontos comerciais e uma capela ou igreja, agrupavam-se moradores pobres envolvidos com o pequeno comércio, com o artesanato rústico, com o trabalho da terra nas fazendas circunvizinhas.

Canudos não era exceção. Surgido no Século XVII, o vilarejo desenvolvera-se em torno de uma fazenda típica. O nome do povoado saíra de uma das plantas da região: os canudos-de-pito. Para alguns estudiosos, em 1893, Canudos contava com pouco mais de 50 casebres erigidos nas imediações de uma velha igreja, de uma casa-grande e de alguns pontos comerciais. Era habitada por uns 250 moradores, envolvidos com as habituais atividades de subsistência das comunidades rurais.

Sua localização geográfica era típica do sertão. Situado a aproximadamente 270 quilômetros longe da capital, distanciado das planícies costeiras, o povoado era cercado por grandes irregularidades do relevo, destacando-se grande serras e montanhas, como a Serra Grande, a de Anastásio, a de Cambaio, a de Coxomongó, a de Calumbi, e a de Aracati. Na proximidade do arraial estava o Morro da Favela.

Favela é o nome de um vegetal existente no sertão baiano.

No sopé do morro, os conselheiristas montaram suas residências. Foram essas cabanas de barro e taipa que deram nome as casas miseráveis dos nordestinos que a partir do início do Século XX, migraram para o Rio de Janeiro.

O solo da região era seco e pedregoso. A vegetação era de árvores, arbustos e leguminosas típicos do semi-árido. Nos campos gerais, nos tabuleiros, nas caatingas, nas matas e nos serrados agrestes germinavam macegas, bromélias, macambiras, umbuzeiros, catingueiras, alecrins-dos-tabuleiros, caroás, e gravatás, adaptados à falta de água. era uma paisagem triste, rude, monótona, características de lugares de temperaturas elevadas e clima seco.

Nas proximidades de Canudos, corriam os rios Itapicuru e o Vaza-Barris, cujo nível das águas mantinha-se apenas no período das chuvas. Durante o resto do ano, podia ser cruzado a pé. Apenas alguns depósitos de água resistiam. A cidade sertaneja desenvolveu-se justamente na parte mais larga do rio, beneficiando-se das águas de suas cheias.

No sertão a época das chuvas, geralmente é, entre dezembro e maio. Os sertanejos chamam "trovoadas" os temporais rápidos e violentos, essenciais para a revitalização dos leitos de rios e riachos, e o acúmulo de água em tanques e cacimbas. Durante o período de estiagem, quente e seco, eles fornecem o único estoque de água.

Havia também, como há hoje, o flagelo das secas. Houve um ciclos de secas no sertão nordestino que assolou periodicamente as populações rurais, desde meados do Século XVIII. Nesses momentos, além do martírio provocado pela carestia e pela fome, havia o desenraizamento, as migrações. A seca de 1877-1879, uma das piores do Século XIX, expulsou multidões de sertanejos em direção às cidades do litoral e às regiões Norte e Sudeste.

Somente no Ceará, durante a seca de 1877, teriam morrido em torno de 64 mil pessoas.

Os corpos malnutridos, as péssimas condições higiênicas, favoreciam as doenças infecto-contagiosas. Era enorme o número de vítimas de epidemias de varíola, cólera e catapora. Entre 1855 e 1857, ao menos 29 mil pessoas morreram vítimas do cólera na Bahia. Na década de 1880, a vacinação contra a catapora foi suspensa, pela falta de vacinas.

Comissões de assistência distribuíram roupas, suprimentos e sementes para flagelados. As embarcações ferroviárias ou fluviais transportavam carregamentos de emergência com alimentos ( carne-seca, mandioca, milho, feijão ), sempre insuficientes para o exército de desvalidos que se aglomerava nas ruas e nas praças das cidades.

A fome, a desnutrição e a exposição às doenças não se restringiam aos períodos de crise aguda ou de graves oscilações do clima. As condições de vida dos sertanejos pobres eram bastante precárias, tornando-os vítimas de diferentes doenças.

Em meados do Século XIX, menos de 5% da população rural possuía terras. Paralelamente ao processo de crise do sistema escravista, diversas leis procuraram regular as formas de acesso à propriedade, proibindo a distribuição gratuita de terras às comunidades necessitadas, restringindo as possibilidades de aquisição pelas camadas pobres e facilitando a concentração fundiária das oligarquias locais.

Em 1895, o governo baiano promulgou a Lei nº 86, que estabelecia como terras devolutas as terras que não tinham uso público, as de domínio particular sem título legítimo, as posses que não se fundassem em documentos legítimos, e os terrenos de aldeias indígenas extintas por lei pelo abandono dos habitantes.

Em 1897, a Lei nº 198, declarava terras devolutas as que não tivessem título,legal e as que não fossem legalizadas em tempo hábil.

Ambas as leis, tornaram frágeis a situação dos ocupantes pobres de terras familiares não-comprovadas por documentos, que ficavam sujeitos a perdê-las para grandes fazendeiros.
Ao mesmo tempo, forçavam os posseiros a permanecer atrelados e dependentes aos personagens politicamente influentes.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A Roda de Despedaçar ou Roda da Fortuna

A "Roda de Despedaçar" era um instrumento de tortura largamente usado pelo Direito Penal e pelo Direito Canônico desde os primórdios da Idade Média.
A vítima, nua, era esticada de barriga para cima na roda com os membros estendidos ao máximo e atados com cordas ou anéis de ferro. Sob a roda colocava-se um braseiro. O carrasco, girando a roda cheia de pontas, fazia com que a vítima fosse assada lentamente.
As vezes no lugar de brasas colocavam-se pontas de ferro na base, e à medida que a roda girava, o corpo se despedaçava. Aplicavam-se violentos golpes com uma barra, destroçando todas as articulações, partindo os ossos, evitando-se golpes que pudesses ser mortais.
Provocava-se, como é fácil imaginar, um verdadeiro paroxismo de dor, levando a plateia ao delírio. Depois do despedaçamento, o condenado era desatado e lhe entrelaçavam os membros com os raios da grande roda, deixando-o ali até que morresse. Os corvos arrancavam pedaços de carne e vazavam os olhos até a chegada do último momento.
Junto com a prova de fogo, o despedaçamento era um dos espetáculos mais populares que ocorriam nas praças da Europa. Multidões de plebeus e nobres se deleitavam ao contemplar um bom despedaçamento, como comprovam várias gravuras da época.
A gravura acima, provavelmente uma xilogravura do século XVII, recebeu a denominação de "roda da fortuna", remetendo-nos a símbolos esotéricos de práticas comuns na Idade Média e que se perpetuam até hoje, como o Tarô e a Cabala.
A roda ou círculo significam o eterno retorno: o nascer e morrer; os ciclos da natureza. Chamar esse terrível instrumento de tortura de "roda da fortuna", além de cinismo, é de uma imprecisão comum encontrada nas fontes imagéticas que nos chegam através das gravuras amplamente divulgadas em livros a partir do Século XVI.
A "fortuna" indicaria o destino do réu como alguém sujeito às forças divinas, algo como azar ou fados. na verdade tratava-se de um procedimento processual público primitivo e irracional. Esperava-se que o réu suportasse o suplício, provando assim sua inocência: reminiscência dos ordálios de Deus.
Seguindo o direito penal comum, os inquisidores medievais lançavam mão, com frequência, da "roda de despedaçar", principalmente nas regiões do norte da Europa: Germânia, países Baixos e Inglaterra.
A chamada Inquisição Moderna - o Tribunal do Santo Ofício - instalada na Península Ibérica a partir de 1478 ( bula Exigit sincerae devotionis affectus ), praticamente não se utilizou mais desse instrumento público, preferindo a tortura por meios mais requintados: o isolamento nas masmorras, as sessões repetidas de interrogatório, o desconhecimento por parte dos réus dos seus acusadores e da culpa que lhes era imputada, impossibilitando-lhes a defesa; aplicação do suplício no "potro" ou na "polé" para obter a confissão, até a pena final da morte na fogueira, queimando-se o corpo para salvar a alma.
Este texto é da autora Benair Alcaraz Fernandes Ribeiro, e foi originalmente publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional nº57 de junho de 2010.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Dossiê das rebeliões Coloniais - Parte 1: Gente Indomável

Há algum tempo a historiografia abandonou a crença de que tenha existido, durante a Época Moderna, um efetivo “poder absoluto” exercido pelos reis. Se associarmos aquele tempo que se estende entre os séculos XV e XVIII – quando se consolidaram os Estados com seus corpos burocráticos e seus exércitos permanentes – à centralização política irresistível que em geral deduzimos elo tendo “absolutismo”, estaremos muito longe ele uma ideia razoável sobre as formas de ação política dos nossos antepassados coloniais.

Se nem mesmo Luís XIV da França, o Rei Sol, tinha todo o poder para si de forma incontestável, o que garantiria o domínio inegociável dos monarcas de Portugal sobre seus súditos no ultramar?
Do início ao fim do penado colonial, o que se viu foi uma contínua busca por manutenção de soberania – na América portuguesa, do século XVI ao XIX, de norte a sul, colonizadores, colonizados e agentes do poder real foram protagonistas de uma sucesso de conflitos que deixam bem clara a distância que separava o desejo metropolitano e a realidade do exercício do poder na colônia.

Desde os tempos mais primevos, a soberania portuguesa precisou se entender com as necessidades locais criadas pelo esforço de colonização. Um caso evidente de desordem interna a colocar em risco a ação do poder metropolitano aconteceu quando Pero do Campo Tourinho, donatário de Porto Seguro a partir de 1534, caiu na malha da Inquisição.

Disposto a auferir a qualquer custo os prometidos lucros que atraíam seus conterrâneos para o além-mar, espremido por grupos indígenas e piratas franceses, Tourinho arregimentou inimigos e colocou em risco o edifício colonial logo durante o início da sua construção. Tido como desbocado, violento e imoral, ao exercer o que acreditava serem as suas prerrogativas, ele instaurou a cizânia entre os colonos. Nos documentos da Inquisição, testemunhas – ou conspiradores – desfiaram um longo rosário de atitudes que demonstravam o quanto Tourinho estava disposto a renunciar às regras que imperavam no governo português na época para atender aos seus interesses: teria dito que trabalhava sem a ajuda de Deus, acusado o papa de agir por dinheiro, ofendido autoridades clericais, espancado um padre. Mais do que demonstrações de anticlericalismo, o donatário acabou despertando a fúria dos colonos contra a sua autoridade aparentemente sem limites, inclusive a de um dos seus filhos, André do Campo, um dos conspiradores.

Tourinho foi preso e enviado para Lisboa, onde enfrentou um processo por blasfêmia. Em depoimento prestado em 1547, relatou as dificuldades que enfrentou para dar início à colonização e chamou seus acusadores de preguiçosos e corruptos. Apesar de inocentado da acusação, Tourinho foi proibido de retornar ao Brasil – na prática, uma vitória dos conspiradores.

Ao longo do século XVI e no início do seguinte, ficaria cada vez mais clara para as autoridades metropolitanas a necessidade de um controle mais efetivo sobre essas populações progressivamente indomáveis que se formavam ao sabor das necessidades e à margem da ordem nas colônias – a posse dos territórios não estava se convertendo em vantagem econômica para as cabeças coroadas na Europa.

Por outro lado, seria justamente na virada do século XVI para o XVII que os colonos de origem ibérica, agora em número maior e com interesses cada vez mais enraizados, desenvolveriam uma percepção muito particular da vida política.

Os acontecimentos europeus, assim como toda a discussão que se travou por conta da União Ibérica entre 1580 e 1640, finalizada com uma rebelião contra o rei espanhol, motivaram um longo e complexo debate sobre a origem e a finalidade do poder político, recuperando teses medievais sobre a relação entre príncipes e súditos.

Os jesuítas ibéricos, envolvidos até o pescoço na vida intelectual e no ensino em Portugal, na Espanha e em seus domínios, expunham suas teses que, ao fim, chegaram a difundir a ideia de que os súditos tinham o direito de se levantar contra as injustiças dos governantes – a palavra “tirania” se tornaria muito comum nos mais variados protestos que tiveram o espaço colonial como palco.

A contradição básica, por fim, se estabeleceu. A Coroa portuguesa precisava entrar no circuito do “excedente colonial” (o lucro com a exploração dos produtos americanos), fosse estabelecendo privilégios comerciais, regulando preços, fosse exercendo pressão fiscal; os súditos, por sua vez, enfrentavam as agruras da vida na América, faziam empréstimos, entravam em operações de risco e esperavam receber de uma longínqua Coroa o reconhecimento por seus esforços e mesmo o respeito pelo “bem comum” na colônia.

A partir do século XVII, essas tensões assumiram diversas formas, raramente em um conflito explícito contra a soberania portuguesa, quase sempre preservada (pelo menos no discurso). O que se via, em geral, além das revoltas ou outras formas de resistência dos escravos contra a sua condição, eram protestos de colonos contra o exercício do poder por parte dos operadores do poder régio na colônia. A fórmula “viva o rei, morra o mau governo” foi a que predominou no período, reiterando a ordem monárquica, mas lembrando os anseios de grupos locais.

Mais do que mero reflexo das relações metrópole-colônia, as populações da América portuguesa eram formações complexas e dinâmicas, com disputas no seu seio, tensões econômicas, religiosas e políticas. As diversas formas de coexistência entre os interesses internos e externos tiveram que se ajustar e reajustar durante um período de quase 300 anos, entre grupos às vezes muito dependentes uns dos outros e outras vezes isolados ou opostos entre si. Não faltam exemplos de ocasiões nas quais habitantes do Brasil antigo se levantaram, não poucas vezes de forma violenta, por aquilo que julgavam ser certo.
Este artigo foi publicado também na Revista História da Biblioteca Nacional, Edição de Dezembro de 2013.
Texto de Rodrigo Elias

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 3: O Conselheiro e a República

Dois acontecimentos, mudaram o rumo da história do Brasil no fim do século XIX. Os dois fatos pesaram no destino de Antônio Conselheiro e seus adeptos.

O primeiro, foi o fim da escravidão, com a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. O segundo foi a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

A abolição foi a conclusão do sistema escravista, que teve inicio na colonização portuguesa em 1532. Com o fim do tráfico internacional de escravos ( proibido em 1850 ), disparou o preço de trabalhadores escravizados. A população servil não se reproduzia, muito menos se expandia, por causa das difíceis condições de vida e de trabalho. Desde os meados do século XIX, escravos passaram a ser vendidos do Sul, Oeste e Nordeste, para as fazendas cafeicultoras do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Imigrantes europeus foram trazidos a partir de 1880, para trabalhar como colonos na produção cafeicultora. No Nordeste, a mão escrava foi mantida até os últimos momentos da monarquia, apesar de governantes e proprietários terem tentado alternativas para substituir os escravos.

Sobretudo na Bahia, havia preocupação com a escassez de mão-de-obra. Além da crise gerada pela abolição, as secas, a fome e o monopólio de terras, causavam um decréscimo de população potencialmente trabalhadora. A posse latifundiária da terra era um freio ao desenvolvimento de uma economia camponesa autônoma. Isso causava uma intensa migração de sertanejos para Salvador ou para o eixo Rio-São Paulo.

O governo baiano incentivava sem obter sucesso a contratação de chineses, japoneses e europeus. Algumas colônias de alemães, suíços e irlandeses foram criadas no início do século, mas não prosperaram. Em 1859, a experiência com imigrantes italianos fracassou igualmente. Vantagens oferecidas a imigrantes dispostos a fundar núcleos coloniais não saiam do papel.

As tentativas da elite rural baiana em introduzir mão-de-obra estrangeira, demonstra o preconceito que existia em relação ao homem sertanejo, uma vez que apesar das dificuldades sociais e de vida, ainda representava um grande contingente populacional.

A população sertaneja pode ter visto a libertação da população escravizada como uma vontade da família imperial, o que fortaleceu a visão popular do imperador como "pai dos desvalidos". A população sertaneja não conseguia perceber a ligação entre a ordem escravista e a ordem monárquica.

Antônio Conselheiro era partidário das ideias abolicionistas. Um escravo fugitivo foi encontrado entre seus seguidores quando de sua prisão em 1876. Em suas Prédicas, redigidas mais tarde, ele apresentaria a abolição como um ato da vontade divina, realizada por um ato imperial.

"Quantos morreram debaixo do açoite por faltas que cometiam!
Alguns quase nus, oprimidos de fome e de pesado trabalho!
E que direis daqueles que não suportavam com paciência tanta crueldade 
e no furor ou no excesso de sua infeliz estrela se matavam!
Chegou enfim o dia em que tinha Deus de pôr termo a tanta crueldade,
movido da compaixão a favor de Seu povo
e ordena a libertação de tão penosa escravidão."

Declarações de Conselheiro, demonstravam o caráter de sua pregação e de suas convicções políticas. elas se encontravam em concordância com amplas correntes do pensamento religioso e social de sua época.

"{..} Dona Isabel libertou a escravidão,
que não fez mais do que cumprir a ordem do céu;
porque era chegado o tempo marcado por Deus
para libertar esse povo de semelhante estado;
o mais degradante a que podia ser reduzido
o ente humano {..}."

A promulgação da extinção do trabalho escravo desestabilizou o regime monárquico. Abandonado pelos últimos partidários, ligados aos fazendeiros escravocratas, o sistema chegou ao seu fim.

A substituição do falido sistema monárquico pelo republicano nasceu de um compromisso entre líderes civis e militares. Nomes como Aristides Lobo, Aníbal Falcão, Lopes Trovão, Quintino Bocaiúva, José do Patrocínio, Campos Salles e outros saudaram o início de uma nova era para o Brasil. Os então considerados atrasados e estagnados, monarquistas convictos logo passaram a integrar ministérios e as bancadas legislativas republicanas após o golpe militar de Deodoro da Fonseca.

O advento da república não contou com apoio popular, nem teve participação das classes subalternas. Ao contrário, as elites militares e civis, atuaram fortemente para tomar o controle do poder.

Republicanos históricos ficaram atordoados com a indiferença das pessoas na instalação do novo regime. No Diário Popular de 18 de novembro de 1889, Aristides Lobo, escrevia que o povo não foi o protagonista dos acontecimentos, mas sim, meros espectadores que julgavam assistir a uma parada militar.

Entre os civis, os defensores do novo regime eram os ligados a cafeicultura paulista. Parte era integrada por advogados, médicos, engenheiros, que surgiram do iniciado processo de industrialização. Junto a eles, intelectuais, defendiam os novos princípios, agarrando-se ao liberalismo, ao positivismo, ou aos princípios herdados da Revolução Francesa.

A corrente militar era composta por altos e médios oficiais, especialmente do exército. Simpatizantes do positivismo, consideravam-se os precursores da modernidade, e poderiam intervir na "coisa pública" sempre que fosse conveniente. O fato de os dois primeiros presidentes terem sido militares, confirmou a influência dos militares na política. Neste ano eram intensos os movimentos em quartéis, regimentos, fortalezas, na escola militar no Rio de Janeiro. Durante o governo de Floriano Peixoto ( 1891 - 1894 ), a influência militar foi dominante.

A república não ampliou a participação popular na política. Assim como fora no império, a participação popular era praticamente nula. Partidos e agremiações, eram formados por uma minoria. O direito ao voto era excluído aos pobres, aos mendigos, as mulheres, aos menores, os militares que não fossem oficiais e aos membros de ordens religiosas. Exigia-se para o exercício da cidadania, qualidades que somente as elites possuíam, enquanto se impedia que a população comum conseguisse cumprir essas exigências. A educação básica era negada a maioria esmagadora. A república nascia antidemocrática.

A participação da elite na luta pelo poder foi intensa. Deodoro da Fonseca enfrentou oposição de ministros e parlamentares, chegando a fechar o congresso em 3 de novembro de 1891. Ele mesmo renunciaria em 23 de novembro, entregando o cargo a Floriano Peixoto.

O "Marechal de Ferro", governou em meio a tentativas de golpe, rebeliões militares, motins de rua, e conflitos civis no sul do país. Usava a espada como objeto de controle sobre adversários radicais. Mesmo desejando perpetuar-se no poder, suas ações permitiram que em novembro de 1894, assumisse o primeiro presidente civil, Prudente de Morais, representando os interesses dos cafeicultores paulistas.

A fragilidade política era agravada pelos problemas econômicos da época, sendo que a produção cafeeira era a única que não foi atingida profundamente. No início da década de 1890, o café era o responsável por 61,5% das exportações, o açúcar por 9,9%, a borracha 8%, o algodão 4,2% e couros e peles 3,2%. O desequilíbrio entre o sudeste cafeeiro e o resto do país, agravava os problemas inter-regionais.

O centro-sul, era igualmente privilegiado pelos investimentos do governo. A construção de estradas de ferro, aproveitamento de vias pluviais, instalação de rede de telégrafos e outras medidas, ampliaram as dívidas com bancos e nações estrangeiras.

Em 1883, o valor dos empréstimos contraídos no exterior era de 4.599.600 libras, e seis anos depois, chegou a 19.837.000 libras. Em 1898, representantes brasileiros tivera de negociar na Inglaterra um empréstimo de salvação, concedido sob condições estritas por parte dos financiadores. Era o "funding loan" parecidos com os do atual FMI.

A política de Rui Barbosa, o primeiro ministro da fazenda, agravou a situação. Ele autorizou a impressão desenfreada de papel-moeda, causando especulações e negociatas na compra de títulos e ações. Foi o famoso Encilhamento.

Isso causou o aumento do custo de vida. De 1888 a 1890, os gêneros de primeira necessidade aumentaram 62% e entre 1891 e 1894, 118%.

No Sudeste e no Sul, porém, as cidades cresciam lentamente. Beneficiadas pelas industrias que nasciam, e a entrada de capital estrangeiro, estas regiões testemunharam o enriquecimento de grupos que controlavam bancos e o comércio. No Rio de Janeiro e em São Paulo, emergiram grupos sociais, identificados com o progresso das cidades europeias.

Os bairros nobres se modernizavam nas cidades. Sobrados neoclássicos da época imperial, foram substituídos pelos palacetes e chalés, com jardins ao estilo europeu.

Em 24 de janeiro de 1890, Campos Salles ( ministro da justiça ) assinou um decreto que estabelecia a obrigatoriedade do casamento civil, a secularização dos cemitérios e a separação entre igreja e estado. Os religiosos manifestaram sua insatisfação. Em 26 de julho, o ministro afirmou que o não cumprimento da promulgação seria considerada crime. O casamento civil deveria ser realizado antes do religioso, e o padre que não observasse essa determinação poderia inclusive ser preso.

Essas medidas tentavam criar uma base de legitimidade ao governo. Baseados nos princípios liberais e positivistas, retiravam da igreja e passavam ao estado, responsabilidades e poderes antes monopolizados por ela.

Outro decreto de 7 de janeiro de 1890, criou o registro civil. Anteriormente, os registros eram feitos nas paróquias quando do batismo. Depois da medida só era válido o registro civil obrigatório em cartórios. Quanto aos cemitérios, deveriam ser administrados pelas autoridades municipais.

Na Bahia, o governo federal nomeou Manoel Vitorino para governar o estado, após reações contra a instalação da república. O deputado federal César Zama se destacou pelos protestos e a oposição dos políticos locais a essa determinação.

No ano seguinte, Manoel Vitorino pediu demissão e o general Hermes da Fonseca assumiu. Este último envolvido em nepotismo e empreguismo renunciou ao cargo. César Zama diria: "Na Bahia, como no Rio de Janeiro, a república foi obra de uma parte da guarnição".

No estado, o poder foi dividido entre a oligarquia tradicional. Com seus redutos eleitorais, a elite fundiária passou a controlar o governo. José Gonçalves, aliado do "barão de Jeremoabo" ( influente latifundiário ), governou o estado de forma intermitente. Ora aliado, ora adversário de Luís Viana, aristocrata eleito governador em 1896.

O controle do poder local era, porém, sempre instável, dificultando a implantação de um projeto político estabelecido pelas elites. Era o reflexo das dificuldades econômicas vividas que contrastavam com a do Sul e do Sudeste.

A economia do estado estava em decadência estrutural, com o cacau e o açúcar não alcançando receitas significativas. Em 1897, a Bahia representava apenas 5% da exportação nacional. Para agravar a situação, a crise cafeicultora de 1896, interrompeu a imigração dos sem-terra para o Sudeste. As secas agravavam o empobrecimento e a marginalização de grupos das comunidades agrícolas do interior.

A abolição da escravatura foi saudada por Antônio Conselheiro, porém a república o desgostou profundamente. Ele aprendera a respeitar e reverenciar o império e o imperador que seria o representante de Deus na terra e defensor da religião entre os homens. A laicidade, o reconhecimento do casamento civil, a separação entre a igreja e o estado, a nacionalização dos cemitérios e o reconhecimento dos direitos religiosos de protestantes e judeus, odiados pelo clero católico, magoaram-lhe profundamente.

Antes de se acomodar a república, a alta hierarquia católica combatera a separação entre igreja e estado.

As posição do pregador sertanejo colocava em evidência as mudanças realizadas pelo governo. A república não oferecia aos sertanejos, nem a população em geral, melhores condições de vida. Ao contrário, o acúmulo de obrigações e impostos aumentava o empobrecimento. Nos anos seguintes a mudança de governo, a população pobre viu suas condições de vida piorarem e as populações rurais culpavam a república pelos problemas.

Para Antônio Conselheiro as dificuldades eram causadas pela separação entre as coisas públicas e as coisas de Deus. A monarquia representava Deus na terra, a república era então, o governo do cão ( ou demônio ).

Na Bahia a renda das exportações caia sem parar. As elites aumentaram os impostos diretos ao povo, criando taxas e acumulando as existentes. Crescia a pressão sobre os municípios e esses pressionavam a população.

A autonomia municipal da Constituição de 1891, dava as elites o poder de explorar com mais tributos a população. para o historiador Marco Antônio Villa, a república passou a ser sinônimo de miséria, imposto, fome, e morte na mente da massa rural.

A receita baiana caiu de forma significativa com as taxas sobre as exportações, e a pressão fiscal sobre a população cresceu consideravelmente. Como a população rural praticava uma economia basicamente natural e escassamente monetária, a inflação era uma coisa inexplicável, e era considerado um fenômeno maligno.

Antônio Conselheiro iria se pronunciar contra a república em suas prédicas desde 1889. A perseguição contra ele aumentou quando o clero, por ordens superiores, cessaram a oposição ao novo regime, reconhecendo sua legitimidade.

Ele era inquirido, e pronunciava sobre o caráter da nova ordem, e sobre os novos impostos, falando sobre as coisas de Deus e das coisas de "César".

Nas feiras da região, eram cobradas para se vender e comprar. Certa vez, os fiscais cobraram cem réis de uma sertaneja para que pudesse expor uma esteira que não superaria o valor de 80 réis. Ao entardecer, o pregador denunciou a situação.

Este tipo de discurso era bem acolhido pela população cabocla. Suspeita-se que ao menos três batidas policiais foram enviadas contra o pregador, sem maiores resultados. As elites baianas compreendiam que resolver as dificuldades financeiras explorando o povo, causava antipatia ao novo regime.

No interior da Bahia, os editais de cobrança eram afixados em painéis, nas praças das aglomerações. Em 1893, em Bom Conselho, os conselheiristas queimaram as tábuas e os editais em uma fogueira. O mesmo ocorreu em outras localidades.

O ato rebelde simbolizava a insatisfação popular contra a nova ordem e os novos impostos. Os discursos do pregador parecem ter iniciado um movimento bem mais amplo do que se acredita. Em diversos municípios o pagamento das taxas foi interrompido. A pregação do conselheiro refletia a vontade do povo ( a isenção de impostos ), porém, não se tem noção da extensão geográfica desse movimento de desobediência civil.

Com a destruição dos editais, Antônio Conselheiro transgredia pela primeira vez a ordem civil. Mesmo se os conselheiristas não reconhecessem a nova ordem, cometeram um delito punível pela lei: destruir um bem público e incentivar a desobediência às autoridades constituídas. Consciente do ato , o líder abandonou Bom Conselho. O juiz de direito da comarca, Arlindo Leoni, requereu ao governador tropas para conter o agitador.

O governador baiano Rodrigues Lima expediu da cidade de Salvador, 35 praças armados sob o comando do tenente Virgílio de Almeida, para prenderem Antônio Conselheiro e desbaratar seu bando, e colocar fim a desobediência às imposições governamentais.

Em Masseté, se deu o encontro entre as tropas rebeldes e a polícia. Todos acreditavam em uma vitória rápida sobre um séquito de beatos, velhas, crianças e penitentes. Não haveria mais de 200 seguidores do pregador.

A história do primeiro confronto não possui muitas informações. O certo é que na noite de 26 de maio de 1893, o destacamento foi vencido pelos conselheiristas, estando estes armados de bacamartes, porretes, facões e armas de ocasião.

Ainda que a disposição bélica da tropa fosse pequena, já que era provavelmente formada por homens com soldo atrasado e arrolados a força, ela estava regularmente treinada e armada. A vitória não se deu apenas por fervor místico dos combatentes, pois não era comum beatos vencerem forças policiais.

Já assinalamos que após a formação do arraial de Belo Monte, Antônio Conselheiro formou a Guarda Católica, composta por seguidores bem armados. Ela foi a espinha dorsal da resistência conselheirista durante o prolongado cerco militar. É provável que ao menos o núcleo central da organização já estivesse constituída depois da prisão do conselheiro, certamente após 1886.

Quando a derrota foi noticiada em Salvador, o governador Rodrigues Lima solicitou ao presidente Floriano Peixoto, ajuda federal para combater os rebeldes.uma nova expedição de 80 soldados da guarnição de linha segui até Serrinha. Em uma reunião, as autoridades acharam mais prudente interromper o ataque. A decisão pode ter sido tomada baseada na insatisfação do povo do sertão com o novo estado das coisas.

Os conselheiristas venciam sua primeira batalha contra o governo "do Cão". O sertão abria-se, livre, imenso, diante do conselheiro e sua gente. podiam procurar um lugar para viver, com seu trabalho e sua orações. Para isso, se deslocaram tempos depois para uma área praticamente abandonada, a Fazenda Velha. No local havia o pequeno povoado de Canudos. Ali, o líder religioso fundou o arraial de Belo Monte. Um nome que registrava esperança e a alegria de viver dessa gente que conhecera, até então, apenas sofrimento e tristeza.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.


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