Em 1897, após a
invasão pelas tropas governamentais, Alvim Martins Horcades, um dos
integrantes da equipe de estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia
que prestou atendimento médico aos feridos nos momentos finais do
combate, descreveu as moradias dos caboclos:
"Eram todas as casas construídas muito toscamente,
sendo as paredes feitas com paus grossos amarrados sob varinhas
e cobertas de barro branco.
Os tetos de algumas eram de folhas de icó e palhas cobertas de barro,
também branco com pedrinhas roliças.
Tinham apenas uma sala, um quarto e um compartimentozinho
que servia de cozinha e sala de jantar ao mesmo tempo.
Algumas havia que tinham espessas paredes,
porém arranjadas na ocasião da investida
feita pela força ( exército ),
pois constavam elas de uma sólida estacada
cheia de grandes pedras
que impediam a perfuração por qualquer projétil."
O
mobiliário era rústico e reduzia-se a três ou quatro peças. Pedaços de
lenha serviam de móveis improvisados. Suportes de madeira substituíam
cadeiras e mesas. Havia ainda redes de dormir, banquetinhas, cestos de
palha trançada, recipientes de couro ou cabaças para guardar água. Os
alimentos eram preparados em fogueiras feitas de graveto, a céu aberto,
em que três ou quatro pedras faziam as vezes de fogão. Comia-se em
pratos ou recipientes fabricados de baro, madeira ou lata.
Os homens vestiam calças de algodão listrado, camisas grosseiras, gibão,
coletes e jaquetas de couro curtido, e sandálias de couro cru. As
camisas, os camisões e os vestidos das mulheres eram fabricados no
próprio local, com fibras conseguidas nas vizinhanças, mas que também
podiam ser adquiridas no comércio local.
Os homens de confiança de Antônio Conselheiro, integrantes da Guarda
Católica, vestiam calças e camisas de algodão azul, cobriam cabeça com
um gorro também azul e calçavam alpargatas. Enfim, vivia-se no
desconforto e na rusticidade, sob padrões de sobrevivência bem
conhecidos dos pobres do sertão. havia porém uma importante diferença.
Em Belo Monte não existia fome e reinavam a solidariedade e a autonomia
populares.
No centro do arraial, localizavam-se as edificações mais importantes:
a igreja velha e a igreja nova ( inacabada ), as casas comerciais e as
moradias dos personagens mais importantes do lugar. Eram habitações
maiores, melhor aparelhadas e distintas das demais por serem cobertas
com telhas, superiores nas dimensões às outras habitações. Destacavam-se
ainda o cemitério planejado por
Antônio Conselheiro e a casa fortificada ( o
Santuário ), dentro da qual o
Conselheiro permanecia retirado boa parte do tempo.
Era grande a preocupação do líder religioso com a instrução dos moradores.
Antônio Conselheiro, dando continuidade ao trabalho pedagógico iniciado décadas antes no
Ceará, mandou construir escolas em
Belo Monte, dirigindo-as pessoalmente. Mandou trazer um professor da cidade de
Souré, chamado
Moreira, que morreu pouco antes da deflagração da guerra. Para substituí-lo, foi contratada
Maria Francisca de Vasconcelos, uma jovem de 22 anos, que estudara na
Escola Normal de Salvador, proibida pela família de casar-se com um jovem trabalhador de origem humilde, fugira com ele, indo morar, inicialmente, em
Souré, e depois, em
Belo Monte.
Poucos e estreitíssimos becos entrelaçados separavam os casebres. A rua principal, situada no centro da comunidade, chamava-se
Campo Alegre. Outros becos ou ruelas ( a dos
Caboclos, da
Caridade, do
Cemitério, da
Professora ) indicavam pontos significativos para os habitantes. Ao contrário, a
rua dos Negros assinalava uma ocupação populacional étnica bem delineada no interior do reduto sertanejo.
O
zoneamento urbano, o material com que era construída, tudo fazia com
que a povoação quase se confundisse e se mimetizasse com o meio de onde
se levantava. A distribuição não-simétrica das casas e a comunicação
feita por meio dos pátios e caminhos irregulares chocavam-se com o
urbanismo racionalista das cidades litorâneas que seguiam o modelo
urbanístico europeu. Ao contrário, elas lembravam importantes centros
urbanos do
Sudão Ocidental, na
África, onde as cidades eram muitas vezes formadas por vilas que se aglutinavam, metamorfoseando-se em bairros.
A configuração do espaço ocupado de
Belo Monte certamente
provocava um impacto visual nos espectadores acostumados com as
aglomerações no estilo ocidental do litoral. Um deles, o frei
João Evangelista do Monte Marciano, chegou a compará-la a um "
acampamento de beduínos", registrando seu profundo preconceito com relação às populações e à cultura sertaneja.
Nos pontos
comerciais e na feira ao ar livre realizada semanalmente, vendiam-se e
compravam-se os gêneros básicos de consumo da região, os gêneros
alimentícios ( queijo de cabra, goiabada, cebola, alho, rapadura,
farinha, carne-seca ), utensílios e instrumentos domésticos ( cestas,
ferramentas ) e até mesmo armas. A moeda utilizada no
Império e na
República circulava livremente em
Belo Monte.
A quantidade de dinheiro jamais foi expressiva. As condições gerais
de vida eram precárias e era baixo o nível de desenvolvimento da
economia monetária na região. Comumente, os sertanejos realizavam seus
intercâmbios pela troca simples e direta, sem utilizarem a moeda.
Com o tempo,
Antônio Vila Nova,
o mais importante comerciante conselheirista, criou um vale impresso
amplamente aceito nas localidades vizinhas e que acabou substituindo o
dinheiro nas trocas. também neste caso, o arraial de
Belo Monte
ofereceu alternativas para seus moradores, que se tornavam autônomos
perante o sistema dominante e a sociedade de classes da época. É
importante lembrar que o privilégio da emissão de moeda é um monopólio
dos
estados independentes.
Do mesmo modo, a vida
econômica regia-se por princípios diferenciados dos tradicionais. No
momento em que ingressavam na cidade os recém-chegados doavam "
parte"
de seus bens a uma caixa comum. Isso não quer dizer que a noção de
propriedade fora abolida. Mantinha-se o direito de propriedade sobre a
produção familiar, alguns bens, e determinados integrantes vinculados ao
comércio acumularam riquezas.
A existência de um fundo comum garantia a manutenção da parcela da
população que não tinha meios próprios para subsistir dignamente e
financiava a estrutura administrativa rudimentar do arraial. Em vez de
socialismo ou
igualitarismo absoluto,
incompatíveis com o próprio nível de desenvolvimento material e
espiritual daquele grupo, é preferível pensar na existência de um
comunitarismo fundado na ideia da solidariedade coletiva.
Nas
imediações do povoado, praticava-se a caça e cultivavam-se gêneros
alimentícios ( milho, feijão, batata, batata-doce, abóbora, melancia,
melão, cana-de-açúcar ). Abundava nas proximidades do
rio Vaza-Barris o
umbuzeiro,
cujo fruto era bastante apreciado por conter bastante líquido. Havia
ainda mangabeiras e várias espécies de palmito e coqueiro, que serviam
de "
celeiro" para os habitantes.
O trabalho
agrícola baseava-se na exploração comunitária do solo por meio das
multirões ( realizados quando da semeadura, na limpeza da roça, no
plantio da colheita ). Essa forma de cooperação foi elemento fundamental
durante a existência da comunidade. Ela permitiu que cada indivíduo
participasse diretamente na manutenção da coletividade, garantindo
condições mínimas de sobrevivência para todos.
Somado ao trabalho realizado no arraial, os moradores prestavam
serviços nas imediações. Dando mostras de manter boa relação com pelo
menos determinados fazendeiros,
Antônio Conselheiro incentivava
os integrantes de seu rebanho a venderem a força de trabalho nas
propriedades rurais das vizinhanças em troco de pagamento diário. Parte
dessa renda terminaria na caixa comum.
Os
conselheiristas contavam com a entrega de bens por parte de admiradores e
constantemente solicitavam a doação de mantimentos e de equipamentos (
este últimos empregados na construção da
igreja nova ) aos
comerciantes e fazendeiros abastados da região. Por motivos óbvios, os
proprietários certamente contribuíam prontamente com o pedido.
A pecuária representou a principal atividade econômica do arraial. Além da criação de gado bovino e equino,
Belo Monte
possuiu grande rebanho de cabras e bodes, comerciando largamente os
produtos deles derivados nas vilas e cidades próximas. As peles eram
curtidas com o sal e o sumo da casca da planta chamada
favela. Em seguida eram enviadas a
Juazeiro, cidade próxima do
rio São Francisco, para serem transportadas de trem até
Salvador. Dali eram exportadas até mesmo para o exterior.
Na beira do
rio Vaza-Barris,
existiam quatro curtumes e pelo menos três casas comerciais negociavam
exclusivamente com o couro, que se tornou a mercadoria mais valiosa nos
intercâmbios econômicos realizados por negociantes como
Joaquim Macambira, homem bem relacionado fora do povoado. Longe, pois, de representar a estagnação, o atraso e o isolamento, a comunidade de
Belo Monte,
integrava-se às condições do sertão, dando mostras de grande vitalidade
e demonstrando amplas possibilidades de articulação com os demais
povoados e aglomerações locais.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra
Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de
José Rivair Macedo e
Mário Maestri, da
Editora Moderna que faz parte da
Coleção Polêmica.