segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Holocausto - A Alemanha Contra os Judeus

Adolf Hitler
A relação de ódio declarado entre a Alemanha Nazista e os judeus de toda a Europa ( e do mundo ), durante a Segunda Guerra Mundial mudou significativamente a geografia do planeta depois de 1945. Direta e indiretamente. E continua a gerar conflitos dos mais diversos, que envolvem aspectos religiosos e econômicos, principalmente na região do Oriente Médio, onde foi estabelecido o Estado Judeu de Israel no ano de 1948.

A gênese da perseguição que levaria ao extermínio em massa dos judeus não está relacionada diretamente à subida de Adolf Hitler ao poder em 30 de janeiro de 1933. O futuro führer não pregou de imediato a propaganda anti-semita. Recorreu inicialmente a um discurso anticapitalista e à promessa de resolver os graves problemas econômicos da Alemanha, que se arrastavam e só pioravam desde o fim da Primeira Grande Guerra, em 1918.

A pregação anti-semita já existia, mas estava num plano que se poderia chamar de secundário, supostamente menos importante. A política nazista considerou como inimigo central prioritário os adversários políticos. Sobretudo comunistas e social-democratas, que se tornaram, antes mesmo do início da guerra, as primeiras vítimas dos campos de concentração. Pouca gente sabe, mas esses locais de isolamento prisional em grande escala entraram em funcionamento já em março de 1933, poucas semanas depois da ascensão de Hitler.

Como se verá a seguir, foi a partir de 1936, que teve início o encarceramento de homossexuais, Testemunhas de Jeová, cristãos, criminosos condenados e alguns considerados "associais" ( ou seja ciganos ), prostitutas e pessoas sem residência fixa. Entre os anos de 1933 e 1938, os nazistas adotaram gradativa e intensamente medidas que acabariam por excluir os judeus da vida econômica e social da Alemanha.
Testemunhas de Jeová, os triângulos roxos
Nesse período, a intenção pareceu ser forçá-los à emigração para outros países, além do império-germânico idealizado por Hitler. Era um propósito extremo e absurdo, uma vez que os judeus só representavam menos de 1% da população do país.
Até a eclosão da guerra, em 1939, o número de judeus tanto da Alemanha quanto da Áustria diminuiu pela metade por causa da emigração e da perseguição. A finalidade dessas medidas cada vez mais segregacionistas era eliminar por completo toda influência judaica em todos os setores do país ( economia, política, cultura, etc ). Depois, com a guerra, a partir de 1941, viria a ideia de se decidir pelo extermínio.

Documentos do Serviço de Segurança da Polícia Nazista ( SS ) sobre o "problema judaico" informava que "se deve exigir o aumento e a imigração assegurada" dos judeus. O texto afirmava que a emigração deveria ser tratada como uma medida "urgente" e ser "concentrada", isto é, "direcionada somente para pontos conhecidos a fim de evitar que em alguns países sejam criados grupos inimigos e que a população desses países se revoltassem contra a Alemanha".

À medida que a Alemanha caminhava para a guerra, o regime nazista divulgava ações antijudaicas. Ao mesmo tempo, incentivava e controlava a saída de judeus de seu território. estes eram obrigados a pagar uma taxa ao estado, tinham seus bens expropriados e só podiam levar consigo uma quantia limitada e irrisória de dinheiro, em espécie. Se não bastasse, alguns países europeus fecharam as fronteiras para a imigração ou as restringiram criminosamente para os judeus.


No campo de concentração de Buchenwald, para onde haviam sido levados 13 mil judeus, ocorreu o maior processo de soltura de prisioneiros da história da existência do campo. Cerca de 2,3 mil deles, sobretudo chamados "anti-sociais", foram mandados de volta para suas casa. Entre fevereiro e agosto de 1939, 2 mil judeus que já tinham documentos para emigrar, foram finalmente liberados, como ressaltou David Hackett, organizador do livro "O Relatório Buchenwald".

O contexto mudaria por completo a partir de 9 de novembro de 1938, quando o anti-semitismo ganhou prioridade para o regime nazista. Neste dia ocorreu o primeiro pogrom judaico na Alemanha do Século XX, num episódio que ficou conhecido como "A Noite dos Cristais". O termo foi uma referência às incontáveis vidraças, janelas e vitrines das casas e estabelecimentos judeus destruídos pelas tropas de choque nazistas e pela população alemã.

Estima-se que o ataque em massa tenha deixado milhares feridos, centenas desabrigados, casa e lojas destruídas. Quase 30 mil judeus foram presos e enviados para os campos de concentração de Dachau, Bunchenwald e Sachsenhausen, nos quais, posteriormente, muitos morreriam.

Era um movimento orquestrado nas altas esferas do reich, mais especificamente por Adolf Hitler e seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels. O evento foi organizado pelas Divisões de Assalto ( SA ) da polícia hitlerista. Para isso, usou-se como justificativa o assassinato do alemão Ernst von Rath dois dias antes, em Paris, pelo judeu de sobrenome Grynszpan, de 17 anos, que supostamente quis se vingar do tratamento desumano dado aos seus pais, na Alemanha. A vítima era funcionário da embaixada alemã na França.

Como represália, nada menos que 91 judeus foram assassinados na Alemanha nessa noite e nenhum dos crimes acabaria no tribunal para julgamento dos culpados. As mortes aconteceram ao mesmo tempo em que a maioria das sinagogas da Alemanha era queimada ou destruída e 7,5 mil lojas de judeus eram apedrejadas ou saqueadas, o que gerou prejuízo de muitas centenas de milhões de marcos.

Os eventos que culminaram nos assassinatos de 7 e de 9 de novembro haviam começado, na verdade, em outubro de 1938, quando 20 mil judeus que viviam na Alemanha foram mandados para a fronteira da Polônia.Entre eles, encontrava-se a família de Grynszpan. Aquela era considerada uma terra de ninguém e os judeus foram amontoados em estábulos, sem alimentos ou assistencia.

Foi quando Zindel Grynszpan decidiu escrever a seu filho Herschel, em Paris. Ao receber uma carta de sua família relatando a situação na qual se encontrava, o jovem ficou desesperado. O governo polonês recusava-se a reconhecer a sua cidadania e, consequentemente, toda a famíliaficou apátrida. Grynszpan decidiu tomar uma atitude desesperada para chamar a atenção do mundo sobre a situação de sua família e dos judeus na Alemanha.

Dirigiu-se à embaixada alemã, alegando ter uma "encomenda" para entregar ao embaixador. Foi encaminhado ao escritório do terceiro secretário. Ao entrar na sala, o jovem atirou no funcionário alemão. para o governo alemão, o fato era uma "prova da conspiração judaica contra a Alemanha".

No dia 9 de novembro, Ernst von Rath morreu vítima dos graves ferimentos. Ao saber dessa morte, Hitler, furioso teria dito a Goebbels: "As tropas de choque devem ter permissão para agir".

Ao que Goebbels teria respondido: "se os distúrbios se intensificarem e se espalharem por outras regiões além de Berlim, não devem ser contidos".

Além de não terem sido contidos foram incentivados por membros do partido nazista.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Dossiê Descobrimentos - Homem à Vista

Mapa de Cantino, 1502

Quando o espanhol Rodrigo de Triana, marinheiro a bordo da caravela Pinta, avistou as Bahamas às duas horas da manhã do dia 12 de outubro de 1492, estava dando início àquela que provavelmente foi a maior transformação já ocorrida no globo. A chegada das caravelas ao Novo Mundo pôs os europeus em contato com novos produtos, novos hábitos e novas necessidades. A incorporação dessas regiões à esfera de influência da Europa teve grande importância econômica, política e estratégica.

Não restam dúvidas sobre a dimensão desse impacto do lado ocidental do Atlântico: as populações nativas sofreram perdas incalculáveis, a começar pela drástica redução populacional causada por doenças ( os índios eram vulneráveis a várias das enfermidades do Velho Mundo ), guerras e escravidão. Além disso, passaram por uma profunda alteração nos seus modos de vida em consequência de uma nova lógica econômica, religiosa e política. Mesmo aquelas parcelas ou grupos nativos que se enquadraram na nova ordem se viram em uma situação bastante diferente daquela anterior ao final do século XV. A integração da África e da Ásia a esse sistema mundial com base no Atlântico, que vai conhecer seu auge entre os séculos XVII e XVIII, levou essas alterações, com altíssimo custo humano ( aliás, desumano ) às outras partes do planeta.

A Europa, ou parte dela, foi beneficiária no processo – se levarmos em consideração que suas elites políticas e econômicas, que variaram ao longo de cinco séculos, do XV ao XIX, estiveram à frente da empreitada colonial. Os bônus foram variados: a consolidação de Estados nacionais, de dinastias, de casas e grupos comerciais, ligados quase sempre a produtos oriundos das colônias, como o açúcar de cana; de uma nova classe social vinculada ao início e ao desenvolvimento da industrialização; e de um sofisticado sistema bancário – tudo com base nas relações ultramarinas.

Ao lado desse óbvio enriquecimento, como é de se supor, há também uma generalização da pobreza, não só no campo, mas, principalmente, nos crescentes centros urbanos. A multidão inglesa nas grandes cidades da revolução industrial, entre os séculos XVIII e XIX ( época da incontestável primazia da Grã-Bretanha no cenário econômico mundial ), é a mais perfeita forma da miséria humana em todos os tempos. A fome e a indignidade que atingiram os trabalhadores pobres do centro do capitalismo formaram o caldo humano que alimentou as ideologias de esquerda mais ou menos radicais, e seu gosto amargo não foi totalmente esquecido nos nossos dias.

O legado americano à Europa, entretanto, não se restringe às riquezas materiais que estão na base da expansão capitalista. Além do ouro, da prata e das pedras preciosas, os produtos coloniais também ganharam espaço naquele continente e alteraram a vida da cristandade. A começar pelo estômago: para se ter uma ideia da contribuição americana, dois dos quatro principais vegetais consumidos no mundo têm suas origens na região. A batata – injustamente chamada de “inglesa” – é originária dos Andes peruanos, onde já era cultivada havia cerca de 7.000 anos para alimentação humana. Foi levada pelos colonizadores europeus primeiramente como curiosidade, mas logo se espalhou e se tornou uma das bases da alimentação mundial. O milho, por sua vez, era cultivado inicialmente na América Central, e quando os europeus chegaram, entre os séculos XV e XVI, já era consumido em todo o continente americano. Devido à facilidade de adaptação e às muitas variedades, tornou-se elemento indispensável na dieta humana.


A sobremesa não poderia ficar de fora: o chocolate, vedete do paladar do Ocidente ao Oriente, estrela das mais refinadas gastronomias, personagem principal de datas especiais nos nossos dias, é igualmente originário das Américas. Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao México, perceberam que a iguaria era para poucos: era servida, por exemplo, ao imperador asteca, Montezuma II (1466-1520). Além disso, o cacau era utilizado em cerimônias religiosas e servia também como moeda. Entre os séculos XVII e XVIII, virou sensação na Europa e nunca mais deixou de ser associado à sofisticação do paladar [ ver RHBN nº 43 ].

Outro hábito emprestado dos nativos americanos, e que acabou sendo considerado civilizado séculos depois, foi o consumo do tabaco. Introduzido na Península Ibérica no século XVI, foi levado pelo representante diplomático francês em Portugal, Jean Nicot, à corte francesa – daí a homenagem no gênero do arbusto, nicotiana, e no nome do princípio ativo, a nicotina.

Entre os séculos XVIII e XIX, como toda moda adquirida da nobreza europeia, fumar virou sinônimo de sofisticação mundana, e os grandes centros “civilizados” do Velho Mundo promoveram a difusão do hábito – ou vício – em amplas camadas da sociedade, principalmente a partir da industrialização dos cigarros, no final do século XIX. Até bem entrado o século XX, mesmo com todas as provas científicas sobre os malefícios dessa toxicomania, fumar foi considerado um símbolo de modernidade, independência e civilidade.

Mas o grande impacto dos descobrimentos se deu mesmo no plano mental: entrar em contato com novas formas de organização social, estruturas políticas, hábitos alimentares, religiosidades, enfim, com novas culturas, trouxe aos europeus a noção de que os homens eram, em sua natureza, muito moldáveis. Levados para fora da Europa por um impulso ao mesmo tempo econômico e religioso, como rescaldo das intolerantes Cruzadas medievais, esses aventureiros acabaram se dando conta de que não havia apenas uma forma de se relacionar com o mundo, com os outros seres humanos e mesmo com as divindades.

Confrontados com uma diversidade inimaginável, que incluía canibais nus vivendo em formações tribais nômades ou vastos impérios territoriais que se dedicavam à construção de pirâmides e sacrifícios humanos, todos dotados de complexas cosmogonias, calendários e efetivas medicinas tradicionais, os oriundos da Europa cristã logo foram obrigados a reconhecer a humanidade de seres muito diferentes deles. Teólogos, filósofos e escritores produziram intensamente, por meio de debates falados e escritos, reflexões sobre o que seria a essência da humanidade, abrindo as portas para o que mais tarde, no século XVIII, seria formulado como “natureza humana”, rejeitando – ou, pelo menos, se abrindo à possibilidade para tal – a superioridade dos cristãos europeus sobre a totalidade dos grupos dispersos no globo.

Este impacto fica claro na mais famosa obra do inglês Thomas Morus, Utopia ( 1516 ). Trata-se de um relato ficcional sobre uma ilha recém-descoberta, onde os habitantes viviam em uma república perfeita, não conheciam a ideia de propriedade privada, colocavam a felicidade pública acima da individual, todos trabalhavam e, portanto, não havia exploração... Enfim, uma anti-Inglaterra, localizada convenientemente na América. Se pudesse haver uma forma perfeita de organização social – em tempos de divisões profundas na Europa, assolada por conflitos políticos e religiosos, agravados por transformações econômicas –, isto seria possível no Novo Mundo.

Se era aceitável a existência de uma formação política superior ( mesmo que utópica ) entre homens que não guardavam quaisquer relações com os do Velho Mundo, como rejeitar a humanidade dos americanos? O dominicano espanhol Bartolomeu de las Casas ( 1474-1566 ), bispo de Chiapas, no México, estava convencido da completa injustiça da escravização dos indígenas. Defensor de um modelo de colonização bem diverso daquele praticado pelos seus compatriotas, enfrentou políticos e teólogos, denunciou as atrocidades cometidas pelos espanhóis no Novo Mundo e morreu aos 92 anos como um autêntico humanista, na mais nobre acepção do termo.

Um humanismo que entrou definitivamente na pauta dos filósofos europeus pela pena de Michel de Montaigne, cujos Ensaios ( 1580-1588 ) tomavam como certa a universalidade do homem, e via como construções artificiais as instituições e os costumes do seu tempo. Esta visão, a longo prazo, abalaria as estruturas políticas, religiosas e sociais da Europa.

Dele a Rousseau ( 1712-1778 ), passando por todos os livre-pensadores franceses, os homens começaram a ser vistos como iguais em sua essência, embora variados em seus valores e modos de vida.

Os marinheiros de Colombo não sabiam, mas naquela viagem acabaram descobrindo um elemento até então incogitado: o homem.
Este texto foi originalmente publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional Nº 84, de setembro de 2012.
Texto de Rodrigo Elias.

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 5: A Comunidade Mística - Terra dos Justos

O Arraial de Belo Monte transformou-se em uma espécie de "terra prometida", à margem dos males da terra, para os adeptos do líder religioso. A proposta reformista de Antônio Conselheiro ultrapassou as fronteiras das classes subalternas, como é comum nessas situações. Há registros de pequenos, médios e grandes fazendeiros vendendo suas propriedades e se transferindo para o interior do arraial.

A fama de Antônio Conselheiro, crescente no decurso dos vinte anos de peregrinação pelos povoados, vilarejos e cidades, atraiu pessoas de inúmeras comunidades rurais baianas e de outros estados nordestinos. Localidades como Queimadas, Itapicuru de Cima foram abandonadas por centenas de moradores que rumaram para a cidade santa.

Para lá foram populares de de Inhambupe, Tucano, Cumbe, Bom Conselho, Natuba, Maçaracá, Monte Santo, Uauá, Entre Rios, Mundo Novo, Jacobina, Itabaiana, e outros núcleos populacionais distantes, dos estados do Sergipe e do Ceará.

Pelo alto das colinas, estradas e caminhos, deslocavam-se grupos de crentes em busca da famosa cidade. Pessoas traziam em macas, parentes doentes em busca de milagres. Vinham pequenos criadores, vaqueiros, mães de família e seus filhos, viúvas e pessoas sem eira nem beira. Pelas estradas de Calumbi, Maçaracá, Jeremoabo, e Uauá, transportavam-se mantimentos enviados de cidades como Vila Nova da Rainha e Alagoinhas, pelos admiradores do pregador.

O enorme contingente populacional foi responsável direto pela ampliação na dimensão territorial do sítio original da fazenda de Canudos. A área ocupada pelos conselheiristas em Belo Monte passou a ser aproximadamente 53 hectares. Em 1895, a população oscilava entre 5 e 8 mil habitantes. Em 1897, uma comissão de engenheiros militares avaliou a existência de mil casas, o que corresponderia a uma população de aproximadamente 26 mil habitantes.


Em 1897, o capitão Manuel Benício, correspondente do Jornal do Comércio, comentava a esse respeito:

"As casinhas vermelhas cobertas de barro
da mesma cor salpicavam a esplanada
desordenadamente em número de mil,
pouco mais ou menos."

Euclides da Cunha estimava a existência de 2 mil casas. Para Marco Antônio Villa, o número apresentado pelo exército é exagerado. Com a informação, a oficialidade buscava justificar as derrotas seguidas das forças armadas durante a guerra contra os caboclos.

Os moradores do arraial pertenciam a grupos étnicos e a camadas sociais bastante heterogêneos. os registros e os testemunhos contemporâneos indicam a existência de indivíduos brancos e negros, mas sobretudo mestiços. Ali se encontravam em número maior, pardos, cafuzos e mamelucos. esses traços, aliás, correspondiam à composição genérica do processo de formação étnica dos sertões nordestinos. O caboclo constituía o resultado do complexo amálgama iniciado com a colonização brasileira. Constituía a prefiguração do brasileiro tipo, negada, pois temida e abominada, por Euclides da Cunha, em Os Sertões: Campanha de Canudos.

É igualmente atestada a presença indígena em Belo Monte. Muitos dos populares que foram para o arraial tinham nas veias o sangue nativo da região. Ela pode ser confirmada na predominância de vocábulos de origem indígena em denominações geográficas como Pambu, Patamoté, Uauá, Bendengó, Cumbe, Cocorobó, Xiquexique, Jequié, Catolé e outras.


Há fortes indícios da existência de índios não-miscigenados no arraial. Algumas tradições dos caimbés de Maçaracá e dos quiriris de Mirandela subsistiram na comunidade, tendo lá inclusive morrido seus dois últimos pajés. Entre os vestígios encontrados no sítio arqueológico há instrumentos e objetos tipicamente indígenas.

Pesquisas recentes demonstram cada vez mais a participação de negros e ex-escravos na comunidade, entre os conselheiristas e entre os chefes da resistência. Belo Monte recebeu todos os refugiados e sofridos, sem distinção.

Antes mesmo de se estabelecer em Belo Monte, Antônio Conselheiro era seguido ( ou ouvido ) por cativos e negros forros.

Nas proximidades de Canudos, existiram redutos de escravos foragidos. No Século XIX, havia quilombos nas cercanias de Jeremoabo e Monte Santo, localidades vizinhas do arraial. Ex-escravos, negros livres e pardos, abandonados à própria sorte após a abolição, encontraram um refúgio em Belo Monte.

Grupos de ex-escravos instalaram-se no arraial, ocupando uma área conhecida como Rua dos Negros. Homens negros desempenharam papéis de comando ( entre os quais o célebre Pajeú ) na resistência militar conselheirista.

Entretanto, índios e negros puros constituíam a minoria da população. A historiadora Yara Bandeira de Ataíde afirma que apenas 4,95% dos habitantes eram negros puros.

A maioria esmagadora dos conselheiristas podiam ser chamados de "morenos acaboclados", mulatos, "escuros" e caboclos, revelando os caracteres físicos típicos do sertão nordestino: cabelo corredio duro ou levemente ondulado, estatura mediana ou baixa.

Quanto à origem social dos conselheiristas, parece não haver dúvida de que em sua maioria, provinham dos estratos mais humildes da sociedade da época. Havia comerciantes e pessoas de posses em Belo Monte. Porém, constituíam parcela inexpressiva. Homens como Antônio da Mota, Joaquim Macambira e Antônio Vila Nova tornaram-se chefes militares ou administrativos e ativos negociantes.

Havia professores, enfermeiros e um médico no arraial. Mas a maior parte dos habitantes desempenhava atividades vinculadas aos ofícios artesanais: mestres-de-obras, pedreiros, pequenas vendedoras, cozinheiras, etc. A comunidade dava abrigo aos deserdados, recebendo um grande número de camponeses analfabetos; pastores e vaqueiros das caatingas; e fugitivos e valentões locais, hábeis no manejos das armas, que viriam a ser designados, de forma pejorativa de jagunços.

A distribuição e a organização do povoado era igual a das outras comunidades sertanejas vizinhas. Porém, no arraial, o forte crescimento populacional determinou uma apropriação desorganizada do espaço habitado. Em geral, as casas construídas possuíam 40 metros quadrados de área. Eram feitas de barro e de madeira, com dois ou três compartimentos e cobertas com folhas de plantas locais. Possuíam uma porta e pequenas janelas.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 4: A Comunidade Mística - A Situação Geral

Em 1983, quando Antônio Conselheiro conduziu seus discípulos para Canudos, o povoado era pequeno, perdendo-se no meio dos vilarejos levantados em torno das inúmeras fazendas baianas. Porém, em um período de quatro anos, tornava-se um dos maiores núcleos populacionais do estado.

Com a chegada dos conselheiristas, o arraial foi renomeado, passando a ser chamado de Belo Monte. O novo nome deu um novo sentido a comunidade. O nome de Belo Monte simbolizava a revalorização geográfica do local. Enquanto Canudos lembrava decadência e abandono, Belo Monte apontava o lugar de encontro dos eleitos com uma vida melhor.

Contrastando com a prosperidade aparente das cidades beneficiadas pelas plantações de cana-de-açúcar e cacau, situadas mais para o litoral, a paisagem do interior baiano denotava a pobreza e o abandono, denunciando as profundas desigualdades entre as áreas costeiras e o sertão.

As condições de vida miseráveis nos pequenos povoados evidenciavam a estagnação econômica e as dificuldades enormes vividas pelos sertanejos.

Nas comunidades compostas algumas por dezenas ou poucas centenas de casas em torno de uma rua principal, alguns pontos comerciais e uma capela ou igreja, agrupavam-se moradores pobres envolvidos com o pequeno comércio, com o artesanato rústico, com o trabalho da terra nas fazendas circunvizinhas.

Canudos não era exceção. Surgido no Século XVII, o vilarejo desenvolvera-se em torno de uma fazenda típica. O nome do povoado saíra de uma das plantas da região: os canudos-de-pito. Para alguns estudiosos, em 1893, Canudos contava com pouco mais de 50 casebres erigidos nas imediações de uma velha igreja, de uma casa-grande e de alguns pontos comerciais. Era habitada por uns 250 moradores, envolvidos com as habituais atividades de subsistência das comunidades rurais.

Sua localização geográfica era típica do sertão. Situado a aproximadamente 270 quilômetros longe da capital, distanciado das planícies costeiras, o povoado era cercado por grandes irregularidades do relevo, destacando-se grande serras e montanhas, como a Serra Grande, a de Anastásio, a de Cambaio, a de Coxomongó, a de Calumbi, e a de Aracati. Na proximidade do arraial estava o Morro da Favela.

Favela é o nome de um vegetal existente no sertão baiano.

No sopé do morro, os conselheiristas montaram suas residências. Foram essas cabanas de barro e taipa que deram nome as casas miseráveis dos nordestinos que a partir do início do Século XX, migraram para o Rio de Janeiro.

O solo da região era seco e pedregoso. A vegetação era de árvores, arbustos e leguminosas típicos do semi-árido. Nos campos gerais, nos tabuleiros, nas caatingas, nas matas e nos serrados agrestes germinavam macegas, bromélias, macambiras, umbuzeiros, catingueiras, alecrins-dos-tabuleiros, caroás, e gravatás, adaptados à falta de água. era uma paisagem triste, rude, monótona, características de lugares de temperaturas elevadas e clima seco.

Nas proximidades de Canudos, corriam os rios Itapicuru e o Vaza-Barris, cujo nível das águas mantinha-se apenas no período das chuvas. Durante o resto do ano, podia ser cruzado a pé. Apenas alguns depósitos de água resistiam. A cidade sertaneja desenvolveu-se justamente na parte mais larga do rio, beneficiando-se das águas de suas cheias.

No sertão a época das chuvas, geralmente é, entre dezembro e maio. Os sertanejos chamam "trovoadas" os temporais rápidos e violentos, essenciais para a revitalização dos leitos de rios e riachos, e o acúmulo de água em tanques e cacimbas. Durante o período de estiagem, quente e seco, eles fornecem o único estoque de água.

Havia também, como há hoje, o flagelo das secas. Houve um ciclos de secas no sertão nordestino que assolou periodicamente as populações rurais, desde meados do Século XVIII. Nesses momentos, além do martírio provocado pela carestia e pela fome, havia o desenraizamento, as migrações. A seca de 1877-1879, uma das piores do Século XIX, expulsou multidões de sertanejos em direção às cidades do litoral e às regiões Norte e Sudeste.

Somente no Ceará, durante a seca de 1877, teriam morrido em torno de 64 mil pessoas.

Os corpos malnutridos, as péssimas condições higiênicas, favoreciam as doenças infecto-contagiosas. Era enorme o número de vítimas de epidemias de varíola, cólera e catapora. Entre 1855 e 1857, ao menos 29 mil pessoas morreram vítimas do cólera na Bahia. Na década de 1880, a vacinação contra a catapora foi suspensa, pela falta de vacinas.

Comissões de assistência distribuíram roupas, suprimentos e sementes para flagelados. As embarcações ferroviárias ou fluviais transportavam carregamentos de emergência com alimentos ( carne-seca, mandioca, milho, feijão ), sempre insuficientes para o exército de desvalidos que se aglomerava nas ruas e nas praças das cidades.

A fome, a desnutrição e a exposição às doenças não se restringiam aos períodos de crise aguda ou de graves oscilações do clima. As condições de vida dos sertanejos pobres eram bastante precárias, tornando-os vítimas de diferentes doenças.

Em meados do Século XIX, menos de 5% da população rural possuía terras. Paralelamente ao processo de crise do sistema escravista, diversas leis procuraram regular as formas de acesso à propriedade, proibindo a distribuição gratuita de terras às comunidades necessitadas, restringindo as possibilidades de aquisição pelas camadas pobres e facilitando a concentração fundiária das oligarquias locais.

Em 1895, o governo baiano promulgou a Lei nº 86, que estabelecia como terras devolutas as terras que não tinham uso público, as de domínio particular sem título legítimo, as posses que não se fundassem em documentos legítimos, e os terrenos de aldeias indígenas extintas por lei pelo abandono dos habitantes.

Em 1897, a Lei nº 198, declarava terras devolutas as que não tivessem título,legal e as que não fossem legalizadas em tempo hábil.

Ambas as leis, tornaram frágeis a situação dos ocupantes pobres de terras familiares não-comprovadas por documentos, que ficavam sujeitos a perdê-las para grandes fazendeiros.
Ao mesmo tempo, forçavam os posseiros a permanecer atrelados e dependentes aos personagens politicamente influentes.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A Roda de Despedaçar ou Roda da Fortuna

A "Roda de Despedaçar" era um instrumento de tortura largamente usado pelo Direito Penal e pelo Direito Canônico desde os primórdios da Idade Média.
A vítima, nua, era esticada de barriga para cima na roda com os membros estendidos ao máximo e atados com cordas ou anéis de ferro. Sob a roda colocava-se um braseiro. O carrasco, girando a roda cheia de pontas, fazia com que a vítima fosse assada lentamente.
As vezes no lugar de brasas colocavam-se pontas de ferro na base, e à medida que a roda girava, o corpo se despedaçava. Aplicavam-se violentos golpes com uma barra, destroçando todas as articulações, partindo os ossos, evitando-se golpes que pudesses ser mortais.
Provocava-se, como é fácil imaginar, um verdadeiro paroxismo de dor, levando a plateia ao delírio. Depois do despedaçamento, o condenado era desatado e lhe entrelaçavam os membros com os raios da grande roda, deixando-o ali até que morresse. Os corvos arrancavam pedaços de carne e vazavam os olhos até a chegada do último momento.
Junto com a prova de fogo, o despedaçamento era um dos espetáculos mais populares que ocorriam nas praças da Europa. Multidões de plebeus e nobres se deleitavam ao contemplar um bom despedaçamento, como comprovam várias gravuras da época.
A gravura acima, provavelmente uma xilogravura do século XVII, recebeu a denominação de "roda da fortuna", remetendo-nos a símbolos esotéricos de práticas comuns na Idade Média e que se perpetuam até hoje, como o Tarô e a Cabala.
A roda ou círculo significam o eterno retorno: o nascer e morrer; os ciclos da natureza. Chamar esse terrível instrumento de tortura de "roda da fortuna", além de cinismo, é de uma imprecisão comum encontrada nas fontes imagéticas que nos chegam através das gravuras amplamente divulgadas em livros a partir do Século XVI.
A "fortuna" indicaria o destino do réu como alguém sujeito às forças divinas, algo como azar ou fados. na verdade tratava-se de um procedimento processual público primitivo e irracional. Esperava-se que o réu suportasse o suplício, provando assim sua inocência: reminiscência dos ordálios de Deus.
Seguindo o direito penal comum, os inquisidores medievais lançavam mão, com frequência, da "roda de despedaçar", principalmente nas regiões do norte da Europa: Germânia, países Baixos e Inglaterra.
A chamada Inquisição Moderna - o Tribunal do Santo Ofício - instalada na Península Ibérica a partir de 1478 ( bula Exigit sincerae devotionis affectus ), praticamente não se utilizou mais desse instrumento público, preferindo a tortura por meios mais requintados: o isolamento nas masmorras, as sessões repetidas de interrogatório, o desconhecimento por parte dos réus dos seus acusadores e da culpa que lhes era imputada, impossibilitando-lhes a defesa; aplicação do suplício no "potro" ou na "polé" para obter a confissão, até a pena final da morte na fogueira, queimando-se o corpo para salvar a alma.
Este texto é da autora Benair Alcaraz Fernandes Ribeiro, e foi originalmente publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional nº57 de junho de 2010.